Carol's posts with tag: poesia
 | Category: | Books | | Genre: | Literature & Fiction | | Author: | Vinícius de Morais |
Uma poesia que me acompanha desde a adolescência e quem sempre, em tempos em tempos, volta a bater a minha porta, para me prestar um pouco mais esclarecimento sobre o despertar da consciência, o enfrentar da persistência e o renovar dessa "Construção"!!!!!
{Eu sei, gente... é meio grandinho, mas juro! Vale cada palavra... recomendo!!! A primeira vez que eu li eu demorei horas para conseguir terminar o poema - e com o gosto de entrar em contato com o livro, a página e o tátil - porque eu chorava compulsivamente e, em trechos e trechos eu tinha que parar para me recompor... Ora de emoção, ora de desolação, ora de supresa, era de tristeza... Um roda de sensações... hehehe}
Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão. Como um pássaro sem asas Ele subia com as casas Que lhe brotavam da mão. Mas tudo desconhecia De sua grande missão: Não sabia, por exemplo Que a casa de um homem é um templo Um templo sem religião Como tampouco sabia Que a casa que ele fazia Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão. De fato, como podia Um operário em construção Compreender por que um tijolo Valia mais do que um pão? Tijolos ele empilhava Com pá, cimento e esquadria Quanto ao pão, ele o comia... Mas fosse comer tijolo! E assim o operário ia Com suor e com cimento Erguendo uma casa aqui Adiante um apartamento Além uma igreja, à frente Um quartel e uma prisão: Prisão de que sofreria Não fosse, eventualmente
Um operário em construção. Mas ele desconhecia Esse fato extraordinário: Que o operário faz a coisa E a coisa faz o operário. De forma que, certo dia À mesa, ao cortar o pão O operário foi tomado De uma súbita emoção Ao constatar assombrado Que tudo naquela mesa — Garrafa, prato, facão — Era ele quem os fazia Ele, um humilde operário, Um operário em construção. Olhou em torno: gamela Banco, enxerga, caldeirão Vidro, parede, janela Casa, cidade, nação! Tudo, tudo o que existia Era ele quem o fazia Ele, um humilde operário Um operário que sabia
Exercer a profissão. Ah, homens de pensamento Não sabereis nunca o quanto Aquele humilde operário Soube naquele momento! Naquela casa vazia Que ele mesmo levantara Um mundo novo nascia De que sequer suspeitava. O operário emocionado Olhou sua própria mão Sua rude mão de operário De operário em construção E olhando bem para ela Teve um segundo a impressão De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão Desse instante solitário Que, tal sua construção Cresceu também o operário Cresceu em alto e profundo Em largo e no coração E como tudo que cresce Ele não cresceu em vão. Pois além do que sabia — Exercer a profissão — O operário adquiriu Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia. E um fato novo se viu Que a todos admirava: O que o operário dizia Outro operário escutava. E foi assim que o operário Do edifício em construção Que sempre dizia sim Começou a dizer não. E aprendeu a notar coisas A que não dava atenção: Notou que sua marmita Era o prato do patrão Que sua cerveja preta Era o uísque do patrão Que seu macacão de zuarte Era o terno do patrão Que o casebre onde morava Era a mansão do patrão Que seus dois pés andarilhos Eram as rodas do patrão Que a dureza do seu dia Era a noite do patrão Que sua imensa fadiga Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não! E o operário fez-se forte
Na sua resolução. Como era de se esperar As bocas da delação Começaram a dizer coisas Aos ouvidos do patrão. Mas o patrão não queria Nenhuma preocupação. — “Convençam-no” do contrário — Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria. Dia seguinte, o operário Ao sair da construção Viu-se súbito cercado Dos homens da delação E sofreu, por destinado Sua primeira agressão. Teve seu rosto cuspido Teve seu braço quebrado Mas quando foi perguntado O operário disse: Não! Em vão sofrera o operário Sua primeira agressão Muitas outras se seguiram Muitas outras seguirão. Porém, por imprescindível Ao edifício em construção Seu trabalho prosseguia E todo o seu sofrimento Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia. Sentindo que a violência Não dobraria o operário Um dia tentou o patrão Dobrá-lo de modo vário. De sorte que o foi levando Ao alto da construção E num momento de tempo Mostrou-lhe toda a região E apontando-a ao operário Fez-lhe esta declaração: — Dar-te-ei todo esse poder E a sua satisfação Porque a mim me foi entregue E dou-o a quem bem quiser. Dou-te tempo de lazer Dou-te tempo de mulher. Portanto, tudo o que vês Será teu se me adorares E, ainda mais, se abandonares O que te faz dizer não. Disse, e fitou o operário Que olhava e que refletia Mas o que via o operário O patrão nunca veria. O operário via as casas E dentro das estruturas Via coisas, objetos Produtos, manufaturas. Via tudo o que fazia O lucro de seu patrão E em cada coisa que via Misteriosamente havia A marca de sua mão.
E o operário disse: Não! — Loucura! — Gritou o patrão Não vês o que te dou eu? — Mentira! — disse o operário
Não podes dar-me o que é meu. E um grande silêncio fez-se Dentro do seu coração Um silêncio de martírios Um silêncio de prisão Um silêncio povoado De pedidos de perdão Um silêncio apavorado Como o medo em solidão Um silêncio de torturas E gritos de maldição Um silêncio de fraturas A se arrastarem no chão. E o operário ouviu a voz De todos os seus irmãos Os seus irmãos que morreram Por outros que viverão. Uma esperança sincera Cresceu no seu coração E dentro da tarde mansa Agigantou-se a razão De um homem pobre e esquecido Razão porém que fizera Em operário construído O operário em construção.

 | Category: | Books | | Genre: | Literature & Fiction | | Author: | "baby lónia" |
se me custa pedir mais dói faltar o que preciso receber sem pedir ousar mas ouso enfim doer se é dor pedir faltar é perceber que custa enfim saber o quanto dói a dor a ousar de precisar Publicado por "baby lónia" • às 01:01 AM • Categoria: Poesia • blábláblá Fonte: http://www.mgrande.com/weblog/index.php/babylonia/comments/a_dor_a_ousar_mjm/Legenda da foto: Dalí, Figure and Drapery in a Landscape, 1934 
Link: http://www.clubedotaro.com.br/site/t77_leonardo.aspUm artigo muuuuuuuuito interessante das simbologias míticas existente nas obras de Fernando Pessoa. Com destaque a sua estética, seus estudos pessoais, até sua amizade com Aleister Crowley. E nessas alturas, o texto se propõe a refletir qual o contato do poeta português com os Arcanos E aí, a narrativa toda se desenvolve em cima do das famosas anotações que antecede seu livro Mensagem. MUITO INTERESSANTE!!!
Magamalabares Acqua Marã Um barquinho oxaiê
Quem esteve aqui Viu barquinho de gazeta Ancorar no mistério
Notas musicais Dentre bolas de sabão que de nossas serenatas vieram
Flores que ofertamos e que nunca morrerão em vasos e jarros se bronzeiam Os anjos de onde vem sua vida bem-vinda Os livros não são sinceros Quem tem Deus como império No mundo não está sozinho Ouvindo sininhos
[Marisa Monte] | Lenda das Sereias | | Marisa Monte Kazaa | | Marisa Monte | |
 | Category: | Books | | Genre: | Arts & Photography | | Author: | Fernando Pessoa {...sempre ele...rs} |
Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada A quem só despertaria Um Infante, que viria De além do muro da estrada. Ele tinha que, tentado, Vencer o mal e o bem, Antes que, já libertado, Deixasse o caminho errado Por o que à Princesa vem. A Princesa Adormecida, Se espera, dormindo espera, Sonha em morte a sua vida, E orna-lhe a fronte esquecida, Verde, uma grinalda de hera. Longe o Infante, esforçado, Sem saber que intuito tem, Rompe o caminho fadado, Ele dela é ignorado, Ela para ele é ninguém. Mas cada um cumpre o Destino Ela dormindo encantada, Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino Que faz existir a estrada. E, se bem que seja obscuro Tudo pela estrada fora, E falso, ele vem seguro, E vencendo estrada e muro, Chega onde em sono ela mora, E, inda tonto do que houvera, À cabeça, em maresia, Ergue a mão, e encontra hera, E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia. ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- POR CAROLINA CARVALHO: Sim, meus pais não tem reinado algum e eu, tenho apenas um irmão mais velho. Sou dona de muitos encantos, porém, muitos dos que já se aproximaram de mim ou que de mim, de fato, já tiveram enamorados, acham por bem não se aproximarem muito além do sensato. Até meu irmão, que nem tem a menor graça, logo arranjou sua pretendente e se casou e já tem sua princesinha (Maria Alice, minha sobrinha).  Mesmo preocupada com minha solidão, minha cara família, ainda sem ter se quer um Conselho com o oráculo de Apolo, já de me vestir de luto, por seis anos, ao abandonar-me só, no alto da montanha dessa casa, a ter com o monstro da sobrecarga e das questões intrapessoais, a quailidade de esposa, dona das coisas aqui em SP. Por anos, sozinha e desesperada, meu pranto ecoou sobre o cansaço, até que uma brisa, regada a um pouco de vodka (né Paulinha, rs!) me levou flutuando até um vale cheio de flores, onde havia um palácio maravilhoso, com pilares de ouro, paredes de prata e chão de pedras preciosas.  Mesmo surpresa e ainda que sozinha, estar ao lado de um grande amor parecia-me o bastante para ser feliz... mesmo que, de fato, eu não pudesse ver o que seu rosto me escondia. As pérfidas a minha volta, que observavam de longe o que eu vivia, aconselhavam-me a largar tudo, caso eu ainda quisesse me proteger... e, a dúvida ia me dilacerando. Até que cai na armadilha. Busquei a luz da verdade e estremeci a tal ponto que a faca escorregou de minha mão e o clarão que rajou da lamparina da realidade entornou. E muito mais do que uma gota de óleo fervente caíra sobre o ombro de uma relação ferida. Disse: "Não há amor onde não há confiança".  Tão forte que se tornou o meu desespero em contornar aquela situação... Empreguei todas as minhas forças para recuperar o amor de Eros. Até me colocar de serva de Afrodite, eu me fiz, sem obter resultado Desde então... muitas tem sido minhas provas para amadurecer minha alma. Separar uma grande quantidade de trigo, milho, papoula e muitos outros grãos misturados. Colher um pouco de lã de ouro de umas ovelhas ferozes. Recolher em um jarro de cristal um pouco da água negra que saía de uma nascente que ficava no alto de uns penhascos. Até descer até ao Hades e trazer uma caixinha com a beleza imortal, o cofre da beleza usado por Perséfone e, dali, sucumbir ao sono profundo. O que não seria possível, sem CLARO, eu poder contar com a ajuda de centenas de formigas, maravilhosos amigos, que me ajudam a fazer todo o meu trabalho. Caniço mágico dos Oráculos que guiam os melhores momentos e ora para agir. Além, é claro, da águia adivina que sempre aparece na forma da minha Fé, que enchem bem fundo o Jarro da Água de que sou feita. Uma trajetória de vida, onde minh'alma, dia após dia, é forjada e purificada pelos sofrimentos e infortúnios que colho da vida, e preparada, assim, para gozar a pura e verdadeira felicidade...  
 | Category: | Books | | Genre: | Literature & Fiction | | Author: | Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) |
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. A aprendizagem que me deram, Desci dela pela janela das traseiras da casa. Fui até ao campo com grandes propósitos. Mas lá encontrei só ervas e árvores, E quando havia gente era igual à outra. Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Gênio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, E a história não marcará, quem sabe?, nem um, Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. Não, não creio em mim. Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? Não, nem em mim... Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando? Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, E quem sabe se realizáveis, Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, Ainda que não more nela; Serei sempre o que não nasceu para isso; Serei sempre só o que tinha qualidades; Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, E ouviu a voz de Deus num poço tapado. Crer em mim? Não, nem em nada. Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo, E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. Escravos cardíacos das estrelas, Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; Mas acordamos e ele é opaco, Levantamo-nos e ele é alheio, Saímos de casa e ele é a terra inteira, Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei A caligrafia rápida destes versos, Pórtico partido para o Impossível. Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, Nobre ao menos no gesto largo com que atiro A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas, E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas, Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê - Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! Meu coração é um balde despejado. Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco A mim mesmo e não encontro nada. Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, Vejo os cães que também existem, E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri, E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis, Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse, E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, Calcando aos pés a consciência de estar existindo, Como um tapete em que um bêbado tropeça Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada E com o desconforto da alma mal-entendendo. Ele morrerá e eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra, Sempre o impossível tão estúpido como o real, Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?) E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. Semiergo-me enérgico, convencido, humano, E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. Sigo o fumo como uma rota própria, E gozo, num momento sensitivo e competente, A libertação de todas as especulações E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira E continuo fumando. Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.) Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. (O Dono da Tabacaria chegou à porta.) Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu. 
Teatro do Incêndio Segunda-feira, 9 de Julho de 2007
Na ponta da praia surgem na primeira grama de areia Os pés serenos de uma juventude alheia e ... abrangente. A Yara da pedra e dos peixes e das frestas Fresca folha orvalhada de sal. Seus cabelos em ondas Suecas desenterram Antigas queixas e me mergulham olhos brilhos pele Sentada clara e quase real. Vou telegrafar uma mensagem, sou muito telepata; Dizer bem baixinho se posso ligar hoje Para o telefone que você anotou no papelzinho. Talvez você atenda com uma tiara de pétalas Cercada de bichos silvestres num vestido de voil sem dó. Vou encomendar flores virtuais Para jogar pra você quando tiver voltado para o mar. Vou pensar em você todo dia quando a tardinha for rezar Para a Mãe D'água te devolver em seis meses. Oxum, Senhora, faz calma nos cursos dela e cuida de mim silencioso [nessas margens. Protetora, permita paz nessa nova alvorada Despeja fria sua nascente em meu peito pequeno e magro; Mãe dela, cerca sua vida de sorrisos finos. Porém muito respeitosos. Outra mãe sentou Sibila pela terra...
Vou pensar mil vezes em me afogar Cada vez que a vida me deixar cansado E eu entrar em desespero de te encontrar. Poderia ser um dia como agora, Esta noite longa de chuva luminosa estelar. Mas falta um número no seu endereço; Não sei em que praia de que mar.
Postado por Marcelo Marcus Fonseca às 04:08
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